Nas últimas semanas os cidadãos lajeadenses observaram atônitos a duas enchentes na cidade causadas pela grande quantidade de chuvas que caíram além do previsto para o mês. Até o dia de hoje, várias famílias ainda contabilizam seus prejuízos e danos referentes a tal catástrofe que de certo modo, pegou a muitos de surpresa.
Em certo ponto de vista, realmente existem coisas que não se pode prever ou por vezes imaginar. Mesmo que existam pesquisas e investimentos tecnológicos enormes nessa área para buscar se aproximar o máximo possível de uma realidade futurística dos acontecimentos, vários destes acontecem e causam muitos estragos, pois não possuem uma regra, ou uma seqüência em certo ponto lógica, eles simplesmente acontecem e trazem enormes dores de cabeça a todos.
Quando se para pra pensar uma afirmativa paira na mente. A vida cotidiana das pessoas também possui suas catástrofes naturais e seus infortúnios trágicos inesperados. Só que ao ser humano, as catástrofes e acontecimentos inesperados se dão por conta dos sentimentos, o que seria até em certo ponto previsível, pois é até certo ponto.
Sentimentos surgem inesperados. Inundam a vida, abalam as estruturas da mente e mexem seriamente com a alma. Causam sofrimento, alegria, euforia, tristeza, ódio, felicidade, inveja, amor, e outras infindáveis causas naturais que por vezes fazem bem e em outras fazem mal.
O mais simples imperativo de um desejo pode desencadear uma tragédia. Não importa a raça, o credo, o sexo, o sangue, a cultura ou a situação financeira. Tal qual um tsunami, um sentimento não canalizado pode causar mortes, sofrimento e tristezas. Tal qual uma simples brisa inesperada num fim de tarde quente, pode amenizar o calor, o cansaço e causar alívio.
Infelizmente, não se pode prever quando o sentimento inflamado irá machucar alguém ou quando irá ser machucado por algum destes. Os sentimentos sempre aparecem por algum motivo, é uma troca recíproca. Aparece em algum instante, por culpa de alguma lembrança, ou pela soma de várias. É algo objetivamente subjetivo, pois aparece por algum motivo, mas qual?
Pela observância de alguns fatos ocorridos ao longo de um dia, uma semana ou de anos, pode-se compreender o porquê de aquela tempestade ter surgido. De pequeno aprende-se com os pais ou por experiência própria, a interpretar os sinais de uma chuva. Céu escuro, nuvens pretas, uma leve umidade paira no ar. Interpretar os sinais que a vida dá é um dos jeitos de se evitar as tempestades e tsunamis pessoais. Saber onde está o ponto vulnerável, quais passos a perna suporta dar, qual caminho é seguro.
Com o tempo, aprende-se a compreender e a aceitar que a vida nada mais é do que um rito de idas e vindas. Pode-se considerar a vida por ciclos, ou como alguns chamam, por momentos. Em alguns ciclos se está propício a certas coisas, em outros não. Em alguns ciclos busca-se a liberdade, aproveitar a vida, curtir, viver adoidado sem precisar dar satisfações a ninguém, não querendo ter alguém em sua vida que lhe retire esse momento. Em outros, o que mais se quer é um cobertor de orelha, alguém pra dormir de conchinha no frio, que traga o café da manhã na cama e que lhe chame de amor.
É como se isso fosse um timing, ou uma espécie de fuso de horário da vida, pois muitas vezes pode-se estar com certa pessoa que se considerada, é para a nossa vida a mais perfeita possível, só que a pessoa, está num timing infértil, num fuso horário diferenciado da outra. E será esse fuso horário que determinará se a relação irá permanecer ou não, o que não se aplica pelas qualidades dos seres em questão, mas pelos momentos diferentes que ambos estão vivendo.
As amizades são assim, o trabalho, a atenção que damos as coisas, os valores que nos constituem. Tudo se resume a isso. Todas as relações se baseiam nos ciclos. Por isso que algumas vezes essas relações não perduram no tempo. Encontram-se outro ciclo, outras pessoas, outros ares. Um tsunami passa e arrasa tudo, as ondas tragam as coisas ruins que foram precariamente construídas, porém por vezes, levam as boas também, mesmo bem edificadas.
Nunca se deve dar as costas pro mar, pois são nesses momentos imprevistos que os tsunamis chegam. Não conseguimos segurar a força dos ventos com nossos braços. Não conseguimos guardar as águas nas mãos. Assim como os sentimentos, que não são aprisionáveis. A vida será feita de tempestades por vezes, mas nunca se deve esquecer que depois dela vem á bonança. Não se pode esperar por momentos onde o frio e o calor, andarão lado a lado, pois tudo tem uma ordem e uma estação para acontecer. Se isto acontecer, será por um desequilíbrio entre os sentimentos, um quer uma coisa, e o outro quer outra. Isso talvez venham a ser como vozes da razão, vozes que foram silenciadas, mas que querem romper com o silêncio do ego. Um eterno vigilante e salva-vidas, que punha a bandeira preta para indicar que o mar está agitado e impróprio ao deleite de suas águas.
Então, resta antecipar-se aos acontecimentos inesperados. Saber qual é o risco residente, qual é a bandeirola que o salva-vidas hasteia mostrando o estado do mar. Ao saber das condições do mar, tem-se a opção de resguardar-se ou aventurar-se, sabendo de ambas as conseqüências possíveis. Tsunamis, sentimentos, desejos... Fatos que fogem do controle de qualquer previsão. Sempre a espreita de um momento oportuno de mostrar o quão se é frágil acerca das coisas que não podemos prever.
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